Wednesday, August 10, 2011

Melides #1


Curioso como o tempo parece não passar pelos sítios da nossa infância. Como se eles, os sítios, esperassem o nosso regresso para poder envelhecer.
Melides será sempre a mesma vila que os meus pés recordam de tanto caminhar. Toda ela cresceu, bonita como sempre fora, mas é a minha Melides.
As memórias atropelam-se à medida que passo pelos sítios. Fantasmas de gargalhadas e alguns apertos.
Uma carrinha citroën a caminho do parque de campismo. Quatro putos que berravam ao som da Cândida Branca Flor. As primas. E nós. E os dias de praia.
A Xanda e o Miro. A Tati e a Erica. As roupas das minhas Barbies que voaram do mini-moke. E eu tão caladinha para não levar no focinho. "Já fizeste asneira, não foi?". E eu tão triste e as Barbies tão nuas.
A Kikas, sempre a Kikas. A Kikas e nós.
A Fonte dos Olhos. Não podia voltar a Melides sem lá ir molhar o pé. Paragem obrigatória depois dos dias de praia. Agora brincam por lá outros meninos, que não nós, Eduardo. Mas como nós. Como esquecer? Juro que senti uma pontinha de cíume... e só por causa das tosses não fui lá molhar o pézinho.
O cheiro da caruma no parque de campismo.
Chocolate Galak, discos, numa esplanada da vila. Porque Melides saberá, sempre, a Galak.
Dançar a lambada com o pai, na casinha/bar que começámos por alugar.
O pão da velhinha - essa, sim, deixou que o tempo a levasse. Ainda lhe sinto o gosto, ao pão, ainda quentinho, com a manteiga a derreter pelos dedos...
As "águas paradinhas" ou a Lagoa de Santo André. Porque nos cresceram as mãos, e os pés, e todos os crescidos sabem que se chama assim! Desconfio que seria gozada pelas criancinhas se lhes dissesse que, para mim, serão sempre as "águas paradinhas".
Tive vergonha de lá entrar.
Até o mar... pobre coitada... Até o mar me assusta há distância de tantos anos... Porque me cresceram as pernas e já não sei ser a mesma menina que cantava Onda Choc e brincava com rãs naquela espécie de lagoa na praia "dos tomates" (Aberta Nova).

Aposto que o Eduardo não se esquece desta.

E aqui estou, a respirar fundo como quem tenta guardar dentro de si cada instante.
Porque há sítios que serão sempre nossos.


24.07.2011

No comments: