ameinínguémacho-meesquisitaPerdoa-me
Houve um tempo em que não era invulgar usar-se um bocado de fio para orientar as palavras que de um outro modo poderiam perder-se pelo caminho e não chegar aos seus destinos. As pessoas tímidas traziam pequenos novelos de fio nos bolsos, mas considerava-se que os palradores também necessitavam deles, pois quem estava habituado a fazer-se ouvir inadvertidamente por toda a gente sentia por vezes dificuldade em ser escutado. A distância física entre as pessoas que usavam os fios podia ser muito pequena; por vezes, quanto menor era a distância, mais o fio era necessário.
A prática de atar copos à ponta dos fios veio muito mais tarde. Há quem diga que esta está relacionada com a necessidade irreprimível de levarmos conchas aos ouvidos, de ouvirmos o eco que ainda subsiste da expressão primordial do mundo. Outros dizem que foi iniciada por um homem que guardou a ponta de um novelo que se foi desenrrulando através do oceano por uma rapariga que partiu para a América.
Quando o mundo se tornou maior, e já não havia fio suficiente para impedir que desaparecessem na imensidão do mundo as coisas que as pessoas queriam dizer, foi inventado o telefone.
Às vezes não há fio nenhum que seja suficientemente comprido para dizer aquilo que é preciso dizer. Em tais casos a única coisa que o fio pode fazer, qualquer que seja a sua forma, é conduzir o silêncio de uma pessoa.'
Nicole Krauss, A História do Amor, D. Quixote 1ª Ed. 2006
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