Tuesday, August 25, 2009

14. BWV 988

Edvard Munch, "O Grito"


"Talvez tudo fosse diferente

se o mundo tivesse começado tão bem

como as variações Goldberg

Não sei, não quero saber, não faço ideia.


Eu, que de arte nada quero,

estou há vários meses sem escrever

um poema. Mas agora, aqui,

sou trespassado por uma cama

demasiado larga e pelo olhar

negro do gato que se apieda, talvez,

de mim. De uma certa ideia de mim

que acorda às quatro da manhã

para a mais ampla noção de vazio.


Felizes, mais ninguém, os que
se matam e não têm um gato

a servir fixo de remorso

nas dobras sujas dos lençóis.

Esses, apenas, que não procuram

de rastos a certeza de outro dia.


O amor? Talvez, quando um cadáver

se recria e afaga penosamente

a morte de que de uma maneira ou

de outra se morre. Quem me dera ser

menos realista, menos real,

menos permeável ao desgosto.

Mas a verdade é esta: partiste

a meio da noite, fodemos pouco e mal

e quando a janela me guilhotinou

já um táxi te levava

para longes terras da cidade em pânico.

É tudo - sabes? - tão dolorosamente simples.

A mão que não quer esperar-me,

o rumor sórdido dos bares,

a certeza de que a vida, a vida,

não deveria ser exactamente assim.


Reúno, numa espécie de voz,

esses estilhaços. Sei que não vale

a pena, sempre o soube.

Há os que se despedem e os que não.

E, indiferentemente, progridem

as diferentes coisas.
Carteiros

matinais, aviões, poetas que dão

corda à musa e escolhem

devagar o timbre da gravata.

Estão no seu direito, partilham

o bem comum, a cidadania do terror.


E eu, infelizmente, existo. Abro

outra lata de cerveja, sob

o olhar reprovador do gato. Sim,

gostava de ser felino - uma coisa

mansa, dolorosa, ao abrigo da tormenta.

Mas li demasiados livros, fumo

pelo menos três maços e não me

parece que volte a acreditar em Deus
(se nem Bach me convence, estou perdido).


E, porém, há nisto uma simplicidade

atroz. A demorada asfixia

das veias, percutindo a noite, a certeza

óbvia de que não estás aqui.

Que música, sequer, me redimiria

agora? Vou morrer assim,

de costas voltadas para os espelhos. A sabê-lo.


Deve ser isso, a dor.

O cancro da manhã infiltrando-se

pela janela, como se eu pudesse

num mundo adiado, palco já sem mim.

Ou o olhar que te viu e deixou

de ver e percebeu subitamente
que um corpo, um corpo apenas,
é matéria de desastre, pronúncia errada.


A música, claro, se tivéssemos

música, qualquer coisa assim.

Em vez disso, os orgãos acomodam-se

ao suplício dos minutos, desagregam-se.

E bastarias tu - ou ninguém, porque

ninguém basta. É um erro - mas gostamos

tanto - pensar que um rosto nos salvará

disto que não sabemos ser, de nós.

Esse pronome pessoal, o inferno.


E é estranho, no mínimo, que o mundo

saiba acontecer, apesar. O silêncio desta
dor
devia calar o universo, dinamitar arredores.
Mas não, desiste. Desiste até de desistir.

Não será este o último poema, por mais

que o julgues ou sintas (e os versos,

para ti, foram sempre sentimentos vãos).


Acordarás sinistro quase vertical,

para as tabernas disponíveis.

Dizem que abusas. Talvez.

Como explicar-lhes, a esta hora,

que nessa retórica gasta

comprometes a vida toda?

Nunca te leram - ou mal. E o grito

permanece incólume no susto da manhã,

nas paredes mais escuras que encontrares
.


O mais estranho não é a literatura,

o solene esgar da poesia.

Mais estranho, sempre, é sobreviver

a
isto, fingir que não, sorrir.

Enquanto o olhar negro negro

de um gato testemunha a tua morte

e se despede melhor do que tu

da música e dos dias e da música.


Qualquer coisa assim."
Manuel de Freitas

1 comment:

Teórica Imberbe said...

sniiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiif!!!