a oferecer al berto como quem come pipocas. incontrolavelmente.
'(...)
desculpa
o que te queria dizer talvez não fosse isto
a solidão turva-se-me de lágrimas
e nas pálpebras tremem visões do meu delírio
olho as fotografias de amigos desertos
corpos coerentes que fomos
bocas de papel amarelecido
onde a sede nunca encontrou a sua água
e às vezes ainda tenho sede de ti
mas na vertigem da viagem o coração galopa desordenadamente
no écran da memória acende-se a imagem da mulher que amei
quase nítida vejo-te sentada
à porta da rua bordando um pano de linho branco
só esta imagem transportarei comigo
embora nunca tenha conseguido saber o que bordavas
uma colcha? uma toalha? um sudário?
também nunca to perguntei
tinha tempo de sobra para o descobrir
vivíamos longe da cidade espreitavas a nesga de mar
como uma risca azul cerúleo ao dim da rua
agora tens as traseiras enlameadas dos prédios para olhar o lixo
cães magros ganindo fogem
às vassouradas de porteiras húmidas de gordura e rolos na cabeça
tens carros estacionados
e todas as merdas que atiram fora pelas janelas
furtivamente durante a noite ou de madrugada
de tempos a tempos o som quase limpo da flauta do amola-tesouras
pergunto-me se a memória não será um espaço arquitectado
para abrigar os mais terríveis remorsos e o futuro
(...)'
Carta da Árvore Triste (a minha mulher), Al Berto
4 comments:
das mas belas. saudades e beijos.
al berto doe-me sempre tanto.hoje isto foi quase cirúrgico. directo à ferida que teima em não sarar...
p.s.: já vi que ainda aí continuam a ecoar as palavras daquela noite
sérias dificuldades em usar a letra i!
:S
diga lá, senhor anónimo?!*
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