"Como poderia eu amá-la, se não fosse por aquela ligeira atenção que nela vibrava, ao mínimo pormenor? Era um olhar feito de pequenas coisas, o ângulo de uma janela, a textura de um vaso, uma moldura abandonada contra uma parede, ao princípio intrigava-me este universo onde todas as coisas pareciam ter a mesma importância, ela vinha de uma cultura jovem, dizia-me, e em tudo busca uma razão superior para a vida, mas depois, pouco a pouco, compreendi que não era isso, talvez neste séculos nos tivéssemos esquecido de viver, baixáramos os olhos, como Ulisses, porque nos absorvíamos todos na tarefa de pensarmos, e ali estava ela, ria e coloria as casas e as palavras, perguntava-me a razão de tudo, mas não como uma criança, antes como alguém que compreendera que tudo estava ainda por inventar. Um dia, perguntou-me porque razão falávamos constantemente da nossa história, eu sabia, desde sempre sabia a resposta, mas há coisas que não se dizem por palavras, nem gestos nos valem para exprimir a agonia da alma, e a alma é o sinal desse lento, repetido, interminável fluir dos tempos. Disse-lhe um verso de Baudelaire, j'ai plus de souvenirs que si j'avais mille ans, ela soltou uma gargalhada, cantarolou o verso e, na voz dela, era apenas música e cores, e de repente, tudo se tornou claro: o que eu amava nela era a cega paixão das formas, a volubilidade inevitável de todos os sentidos, a constante transformação de tudo, porque com ela tudo era possível, de novo, uma outra vez.'
antónio mega ferreira, lisboa song sextante editora 2009
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