Thursday, May 15, 2008

'ensinas-me a voar?'


“… e mal o papel da parede começa a destingir para dentro de mim vou num pulo ao meu quarto e trago a colecção de borboletas do meu tio Fernando (…). Era solteiro como eu mas morava sozinho e de tempos a tempos, aos sábados, como nós morávamos perto do campo da bola, vinha almoçar connosco antes dos jogos. No fim do almoço enquanto a minha mãe lhe servia o café perguntava-me com um sorriso que nunca percebi
- Ensinas-me a voar?
eu com cara de parvo a achá-lo maluco, a minha mãe desconfiada
(a minha mãe desconfia de tudo)
que história é essa Fernando?
o meu tio Fernando, muito compenetrado, com os beicinhos em bico para não se queimar e mão espalmada no peito para não sujar a gravata
(a minha mãe diz que as nódoas de café são um tormento)
- todas as crianças sabem voar Madalena.
e eu, agarrado aos móveis com medo de voar sem querer pelo corredor fora.”

‘Ensinas-me a voar?’ António Lobo Antunes, Livro de Crónicas,

D. Quixote, Maio 2006


Dou por mim sentada entre livros e a pensar em ti… em como tudo começou.

Meia dúzia de palavras. O teu silêncio. O meu silêncio. Nosso. O teu olhar. E aquela certeza absoluta de que tínhamos de acontecer.

Aquela estranha cumplicidade. A amizade tão forte que ambos sentimos… que me assustou…

Aconteceu que quatro meses e um dia era eu. Ou eras tu. Ou era isto. E isto é estranhamente assustador. Eras eu, impossível de explicar.

Fiz-te promessas que não consegui cumprir… fugi de ti… e no entanto ninguém me arranca do peito o que sinto por ti. Olhar para ti é ver-me ao espelho, estranhamente mais alto, e de olhos verdes. Levados por uma cegonha trapalhona que te deixou cair primeiro.

E é isto. Simples. Tínhamos de acontecer.


Sente um dilúvio de sensações, perde-se nos mistérios, nas complicações que a vida trata de lhe presentear sem pedir licença, nada pediu e foi-lhe entregue tanta dor. Colocam-no num labirinto perdido, um infinito de paredes iguais, todas da mesma cor onde vagueia sem parar, sem descobrir uma saída que o liberte da angústia de estar perdido nessa encruzilhada mental. Vê uma porta entreaberta, o espaço é pequeno e entra transformando aquele lugar no seu refúgio silencioso; agarrando no seu bloco de mistérios, pegando na sua caneta, vai escrevendo capítulos dos seus dias e deixando-os diante de todas aquelas cruéis paredes brancas. Ninguém chegara para ler os testemunhos, ninguém entrara naquele jogo de saturação, passavam os dias e acumulavam-se as palavras, até que desistiu… juntando-se ao silêncio através das suas palavras.


Um lugar muito branco com corredores muito brancos e estranhas portas que desapareciam quando tentava alcançá-las, estava descalça, perdida.

Percorria dia a dia toda aquela imensidão branca na busca de um sentido e dia após dia tudo se mantinha estranhamente igual… numa luminosidade tão branca que me encandeava o coração.

Num silêncio, abriu-se uma porta. A medo tentei alcançá-la e ela não desapareceu, pareceu sorrir-me quando, hesitante, pus um pé do lado de lá… as lágrimas caiam-me em gotas rechonchudas que rolavam pelas bochechas para desaguar num sorriso que não acreditava ainda (no) que acontecera.

Esfreguei os olhos.

Encolhido aos pés de uma cama estava um rapaz. Tinha a cabeça baixa, apoiada nos joelhos que apertava com força contra si. Numa das mãos que abraça as pernas, um bloco de papel rabiscado pendia sobre os pés… olhava o vazio. A minha presença parecia não ter sido notada, o quarto era incrivelmente pequeno e tudo estava preenchido ao pormenor numa mistura imensa de cores e sentidos.

Susti a respiração

- será possível?...

Folhas e folhas de caderno arrancadas com pedaços de vida espalhavam-se pelo chão entre retratos de pessoas que pareciam sorrir em felicidade cromática. O meu coração disparava. Sem pensar, percorri todas aquelas páginas bebendo delas o que deixara de sentir… estava ali, estava a ler-me. O rapaz levantou a cara, olhava na minha direcção… vira-me. Sorri-lhe. Pareceu reconhecer-me.


Os seus olhos transmitiram-lhe confiança, segurança e levantou-se sonolento e exausto, rompendo o silêncio disse: “Os teus olhos dizem-me aquilo que és, o que vês em mim, aquilo que buscas incessantemente sem saberes o seu propósito, a ajuda que necessitas para arrancar as tuas fraquezas e tudo aquilo que aos teus próprios olhos já não faz sentido, afinal de contas estás aqui não só para salvar-me, estás aqui para ser salva, para que olhes e vejas o que de precioso o teu reflexo te transmite”.


Levantou-se e veio sentar-se a meu lado… e contou-me todos esses pedaços de si que cobriam aquelas paredes… fascinada, olhava para ele. E como uma criança, sorria-lhe. Já não me sentia sozinha.


Os dois caminharam numa romaria sem destino e foram-se conhecendo pelo casual silêncio dos tempos, desenvolvendo as claves mais harmoniosas da amizade.


Os corredores já não eram tão brancos e eu era agora uma criança pequena… como tu. Passeávamos lado a lado.

Em breve, todas as paredes que conheci, tão brancas, seriam murais coloridos que ias pintando com cores que só nós conhecíamos. E eu, sentada a teu lado sorria. Ouvia as tuas histórias de olhos muito abertos enquanto me puxavas pela mão…


vá anda, caminha ao seu lado. Nem te tentes perder, esquecer, voltar passos atrás… é impossível, são tantas as paredes pintadas com gestos, acções e palavras retratadas, lembrar-te-ias e voltarias a correr em passos pequenos, encontrá-lo-ias sentado junto à mesma parede onde o havias largado, estava expectante, visivelmente agastado à espera que chegasses para pintar mais uma das infinitas paredes deste labirinto por onde vagueiam, não deixaria que ficasses para trás perdida nas tuas memórias actuais que o seu passado haveria transformado, não permitiria que descobrisses sozinha o significado destes rabiscos transformados em contos; Anda, caminha a seu lado, gosta muito mais de colori-las sabendo que observas atentamente cada traço sentada no teu canto, aprendes a colorir este mundo com cores mais felizes, outras mais tristes… Mas sobressai a harmonia deslumbrante! Gosta que partilhes o seu silêncio e que sorrias após mais uma e outra… Acabou mais uma parede, sorri é um memorial às pequenas crianças que um dia se encontraram para caminhar lado a lado, vá dá-lhe a mão, têm tanto que pintar, aprender, caminhar… Haverão de pintar todas essas paredes brancas durante vidas e mais vidas…


O labirinto aos poucos se desvaneceu… as paredes outrora muito brancas… outrora pintadas em tons de amizade… eram agora corredores riquíssimos com paredes forradas de sorrisos que me aconchegavam a alma. Era um palácio, e era tudo tão lindo. Ficava no alto… muito alto… e voava, não tinha reis… nem princesas, mas tinha sorrisos que aconchegavam a alma. Tu já não estavas a meu lado, mas sentia-te ali, estava dentro de ti, no teu coração. Não estava sozinha. Não voltaria a estar nunca mais.

O labirinto era agora o lugar mágico que recordava de lágrimas sorrindo.

Continuava a imaginar-te lá dentro, a levar pela mão uma outra criança, a embalar-nos os sonhos, a mostrar-nos que a vida não é só isto, mas muito, muito mais… a guiar-nos a saída, a abrir-nos a porta… e a ficar para trás acenando um tímido


- Adeus!


E por medo foste ficando. E eu fugi… sem nunca te poder esquecer.


Na realidade és agora meu afilhado, e eu a tua madrinha, da menina pequena ficou o sorriso e o coração.

Entre ‘conferencias com patinhos’, uma rumaria às pedras, um guincho sem guincho e um anfiteatro de olhos cravados em nós, fomos isto tudo sem nunca o termos sido… duas crianças que se gostaram sem saber porquê, numa estranha inocência que nos fez acreditar que um dia uma simpática cegonha trapalhona te deixou cair quatro meses e um dia antes de mim.


Tinha de te cruzar. E tu já o sabias.


É para ti esta parede.


Porque a amizade é Um só de Muitos*

Inês

1 comment:

Empregos no Mundo - Oportunidades Estrangeiro said...

Ainda não é hoje... chega amanhã sem falta...

"A nossa temporalidade! Nem é tarde nem é cedo, o agora é eterno..."

:)